A literatura é importante para o Ocidente perceber o Médio Oriente

Mathias Énard e Valério Romão no FOLIO AUTORES

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A literatura pode ter um papel essencial na forma como o Ocidente vê o que se passa no mundo árabe, considera o escritor francês Mathias Énard, que esteve ontem à noite, 12 de Outubro, à conversa com Valério Romão, no FOLIO – Festival Literário de Óbidos, num debate moderado por Ana Sousa Dias.

“A literatura, ao contrário da informação imediata, opõe-se às influências emotivas” e, desta forma, apresenta toda a sua complexidade. O caso da Síria é paradigmático, “nunca ninguém previu o que viria a acontecer, metade do país foi destruído”, disse Mathias Énard.

Nascido em França, o escritor estudou persa e árabe, e viveu largos períodos no Médio Oriente, sendo atualmente professor de árabe na Universidade de Barcelona. Da sua experiência em países como a Síria e o Iraque, contou que são povos muito acolhedores e que ajudam os estrangeiros. Existe, claro, o outro lado mais negro, de não existir liberdade de expressão e de estarem sempre a ser espiados.

Também nascido em França, Valério Romão disse que ser luso-descendente fez com que fosse visto de maneira diferente no país onde nasceu e, em Portugal, para onde se mudou com 10 anos de idade. Nos seus livros, tem falado sobre aquilo que se passa no interior das famílias e em cada um de nós. De realidades que não são faladas.

Ambos os autores explicaram o seu processo de escrita. Enquanto Mathias Énard é um estudioso que gosta de fazer muita investigação, Valério Romão prefere não ter de o fazer. Ficou por isso no ar a possibilidade, em jeito de brincadeira, de ambos fazerem um livro em que cada um fizesse o que gosta mais. O tema, sugerido por Valério Romão, poderá ser o das teorias da conspiração “mais estapafúrdias”, como a terra ser plana ou o mundo ser dominado por lagartos disfarçados de humanos.

Afinal, como notaram os dois escritores, vivem-se tempos de mudança e de dúvida. “Estamos num mundo em transição, muito perigoso, em que o saber está muito fragmentado”, concluiu Mathias Énard.

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