“Cada vez mais, há uma certa procura de identidade entre o leitor e o escritor”

FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos

396

“Literatura – aproximação ou distanciamento” foi o ponto de partida para uma conversa entre os escritores Alberto Manguel e Pedro Mexia, durante a qual o autor português afirmou que lemos romances históricos de outros séculos ou sobre experiências humanas, como a guerra, o exílio ou a pobreza, mas também livros em que gostamos de nos reconhecer. “Cada vez mais, há uma certa procura de identidade, no sentido em que o escritor e o leitor se devem aproximar.”

“Todos nós sentimos que a literatura nos põe em contacto com outras experiências e realidades”, disse Pedro Mexia, embora considere muito diferente ler sobre o holocausto em livros de História ou em livros com os protagonistas dessas histórias. Alberto Manguel acrescentou que a arte, sobretudo a literatura, é como um “ménage à trois, entre o leitor, o autor e o protagonista”. “É o campo do descobrimento do prazer. A discussão tem de mudar deste campo sociológico de censura para um campo livre.”

O escritor argentino acrescentou que “as Histórias da literatura querem convencer-nos de que os autores dos livros é que a fazem, mas é o leitor que a faz, pois, se o livro ficar de lado, vai ficar esquecido”. Por outro lado, defendeu que, apesar de a interpretação do leitor ser livre, tem de ser responsável, dando como exemplo o assassinato do cantor John Lennon, justificada pelo homicida com a leitura do livro Catcher in the Rye. “Tem direito de a interpretar, mas não de atuar contra o ser humano.”

Pedro Mexia não considerou a alienação no ato de ler ou de ver um filme negativa. “O leitor comove-se com o que é comovente”, explicou. “Agora, se estivemos o tempo todo a dizer ‘é um filme’, não tiramos prazer nenhum. Essa alienação durante 90 minutos é muito positiva”, sublinhou. “Matar John Lennon não.” Confessou ainda ter sentido um choque ao ver um ator que participou numa “peça de teatro com uma linguagem extraordinária”, a pedir salgados num café, no dia seguinte.

A propósito da obra de Miguel de Cervantes D. Quixote de La Mancha, Alberto Manguel afirmou que as suas leituras causam alienação da mentira de um mundo de injustiças e de diferenças entre classes. “Quando vê essas injustiças, D. Quixote quer atuar, apesar das consequências não serem as melhores e de ter causado mais injustiças”, comentou. “Em geral, o mundo distancia-nos da realidade e a literatura aproxima-se da realidade. É uma mentira dizer que a literatura diz a mentira. O mundo que sentimos é todo feito de mentiras. A literatura é uma forma ambígua que permite o diálogo e fazer perguntas.”

Informações em obidos.pt e foliofestival.com

Nota de imprensa