“Tudo o que parece ser uma escolha livre, muitas vezes não é”

FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos

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O psicólogo David Guedes afirmou que a inteligência artificial está presente no nosso dia-a-dia, através de algoritmos, pelo que “tudo o que parece ser uma escolha livre, muitas vezes não é”. O alerta foi deixado durante a conversa “O futuro das artes e da cultura”, com os psicólogos Thomas Behrens e Susana Catarino, que decorreu ontem no FOLIO.

“Isso assusta-nos, porque parece que alguém nos conhece melhor do que nós próprios, o nosso pai ou a nossa mãe”, comentou David Guedes. “Ao termos um algoritmo que nos diz o que queremos ouvir, cria-se um risco sério de nos tornamos fechados e inflexíveis em relação ao que é diferente”, avisou.

Apesar da inteligência artificial nos deixar “inquietos”, o psicólogo lembrou que “as previsões para o futuro foram sempre menos negras do que se fazia crer”. No entanto, admitiu existir receio em relação às gerações mais novas, o que considerou mais problemático. Coautor do livro O futuro de quase tudo, Thomas Behrens também manifestou preocupação com o facto de os jovens não conseguirem viver sem “mediatização”.

“Todos nós sentimos que alguma coisa está a mudar. Há 20 anos, existia um ambiente natural e depois a parte do simbólico, feita por artistas e por especialistas. Esse tempo acabou”, afirmou Thomas Behrens, devido a essa mediatização protagonizada pelos jovens. “O mundo já não é o real. O real é uma dimensão inacessível. Sentimos isso quando começamos a falar de emoções. É difícil exprimir em palavras aquilo que está a acontecer dentro de nós.”

O psicólogo alemão explicou que, ao entrarmos na época da comunicação total do simbólico, essa outra parte fica perdida. “No futuro, isto pode criar grandes problemas. Se tudo o que sabemos já foi mediatizado, feito, perdemos a dimensão de comunicar”, afirmou. “E isso manifesta-se na falta de empatia, de preocupação com o outro, do que não é só simbólico”, sublinhou.

“Não podemos resolver as situações com a mesma fórmula de antigamente. É um desafio para todos nós olhar para um futuro, que também nós estamos a aprender”, acrescentou a arte-psicoterapeuta Susana Catarino. “Preocupa-nos determinados jogos de computador, que geram violência, possivelmente porque não estão a ser criados outros jogos”, defendeu. “Se me aliar a técnicos de diferentes áreas, isso é possível. Temos de alargar a atuação.”

Susana Catarino considerou “urgente” a transdisciplinaridade. “A nossa geração tem uma realidade, vive-a e sente-a de uma forma diferente das gerações mais novas”, constatou. “Necessitamos de comunicar e dialogar nas diferentes áreas, até no digital. Tudo isto faz sentido pensar em conjunto. Temos esse grande desafio.” A este propósito, lembrou que as artes e a cultura ajudam a transformar o ser humano. “Temos de saber mais de nós. É um trabalho que nos cabe a nós, psicólogos, associado à criatividade, que é poderosíssima e está um pouco escondida.”

Informações em obidos.pt e foliofestival.com

Nota de imprensa